era suposto ser um concurso... mas acabou um textozinho jeitoso
Isto era para ser um texto a submeter a concurso para a rfm.... mas não só num era este o tema (Ahh Jo.. onde andas com a cabeça...), como o concurso acabava no próprio dia... :P
Enfim.. aqui fica ele...
Acabei de decidir. Se há algo que é realmente esquisito demais para ser tolerável, é comer com um fantasma a seguir intentamente cada garfada com o olhar. Mas enfim, era apenas mais uma situação perfeitamente irreal, numa noite completamente louca.
Depois de me ver sentada com um pedaço de pano, ainda chamado de chapéu apenas porque se conseguia enfiar na cabeça, a falar comigo e a comentar que, se eu gostava assim tanto do Snape, mais valia ir para os Slytherin e aproveitar, lá acabei por ser escolhida para a mesa mais óbvia. Sim, porque Gryffindor não é a casa dos corajosos, é sim a dos doidos que inventam rebuçados lingua-de-légua, que chamam segunda casa à Floresta Proibida, e a quem, de alguma forma, uma noite sem castigo é o resultado de um dia perdido. Ora para alguém que passa os dias na Mata Restricta, tem ataques de riso incontroláveis em plena aula, anda pelos corredores a invocar doninhas e a fugir de sapos igualmente invocados, para além de ter no currículo duas expulsões por distúrbios vários e outra por utilização ilegal de mágicas nos corredores, foi sem surpresa que me vi entalada na mesa em tons vermelhos e dourados, entre um rapaz roliço e tímido, e um ruivo barulhento que, de momento, estava ocupado demais para fazer mais que piscar o olho, visto que é difícil falar com duas pernas de frango enfiadas na boca. Esforçando-me por não me rir, desviei a atenção à procura de alguma coisa para beber para além de sumo de abóbora. Por mais que todos o bebessem, não era suficiente para me dar vontade de o provar. Finalmente encontrando a água, enchi o copo enquanto um rapaz na minha frente, com uma garfada de pudim de carne a meio caminho da boca, perguntou apressadamente:
"E então, ouvi dizer que vieste de outra escola?"
"Sim." respondi sem me alongar, visto estar indecisa entre provar o tal pudim, tentar a perna de porco com umas ervas estranhamente azuis, ou jogar pelo seguro e agarrar-me às familiares pernas de frango antes que elas desaparecessem no abismo infindável, mais conhecido como 'Boca do Ruivo ao Meu Lado'.
"E como era?" formulou o dito abismo, palavras saindo por entre a comida. O rapaz parou, engoliu, e acrescentou com ar preocupado: "Não vieste de Beauxbatons, pois não?"
"Não." onde quer que isso fosse. "Vim da Escola de Feitiçaria e Conhecimento Mágico de Coimbra."
"E como é? Parecida com Hogwarts?"
"Bem... não tem fantasmas... que eu conheça." disse, pausando no arroz fritado de omphalina, e olhando de soslaio para outro fantasma, aparentemente saído das histórias do Robin dos Bosques. Vários comentários soaram então, à medida que mais pessoas iam tomando atenção à conversa que começara.
"E que mais? Os professores são bons?" perguntou uma rapariga no outro lado do ruivo, cabelo encaracolado revolteando até a meio das costas.
"Alguns. Outros não valem nada."
"Ah." disse o ruivo com uma gargalhada. "É como aqui. temos cada um que nem imaginas!"
"Ron!!"
"É verdade!"
Depressa me distrai da discussão entre eles, visto que a mesa estava rapidamente a ser preenchida por sobremesas suficientes para acabar com o apetite dos piscos carnívoros da Mata. Com um sorriso guloso, estendi o garfo para um prato cheio de tiras semelhantes a farturas, olhando já para uma taça de molho vermelho-vivo, que exalava um forte cheiro a framboesa.
"Oh, vá lá! Aposto que na escola dela não tens fantasmas a dar aulas!"
Esse pedaço de conversa atraiu a minha atenção.
"Não, mas temos uma professora que seria mais interessante se o fosse. Já se dorme nas aulas dela, de qualquer maneira..."
"Espera até teres a primeira aula com o Binns."
"Binns?"
"O tal fantasma." replicou o rapaz na minha frente, como se espíritos presos ao mundo dos vivos e dando aulas enquanto assombram a sala fosse a coisa mais natural do mundo.
"Er..." não sabia o que dizer a isso, portanto aproveitei a pausa para acabar com a minha fartura que não era fartura, mas que não deixava de ser excelente por causa disso. "E os outros professores?"
"São bons." a jovem respondeu com gosto, ignorando os sons de gozo vindos da direcção geral do ruivo, que pelos vistos se chamava Ron. "A professora McGonahal é exigente mas muito boa, assim como a Professora Sinistra, e o Professor Flitwick é excelente, e--"
"A Professora Sprout também!" interrompeu o rapaz na minha esquerda, pela primeira vez intervindo na conversa. Sabendo perfeitamente que não me ia lembrar de tantos pormenores no dia seguinte, puxei a conversa para o único professor que até agora conhecia.
"E o Professor Snape?" disse, enquanto escolhia por entre flocos de neve enormes, com mais cores que o arco-íris, determinada em descobrir do que é que eram feitos, exactamente.
Alguém se engasgou para lá da rapariga, e uma cabeça apareceu por detrás dela.
"Conheces o Snape?!"
Virei-me para este novo rapaz. Cabelo escuro, algo rebelde, espetava em certos sítios, e caia desordenadamente sobre a testa. Olhos profundamente verdes fitavam-me por detrás de óculos redondos, e o franzir da testa pôs em evidência uma estranha cicatriz meio escondida por entre as madeixas, correndo em ziguezague desde a linha do cabelo, até pouco acima da sobrancelha actualmente franzida.
"Harry Potter." disse, ligando o nome à pessoa. E imediatamente, como é meu costume, disse a primeira coisa que me veio à cabeça: "Tenho um esquilo com o teu nome!"
Digamos que a gargalhada geral que se seguiu foi suficiente para que até nas mesas mais afastadas houvesse gente a olhar curiosamente na nossa direcção.
"Um esquilo!" Ron, particularmente, estava a achar imensa piada. Não pude deixar de sorrir.
"Sim. Não é propriamente meu, visto que vive na Mata."
"Na Mata?"
"A Mata Restricta. Acho que deve ser o equivalente à vossa Floresta Proibida." um coro de "Ahh's" respondeu a essa informação. "Bom, mas como ele anda sempre connosco, eu e os meus amigos acabámos por o adoptar, por assim dizer." não pude deixar de me rir, enquanto as memórias me vinham à cabeça. "Sabem, é que houve um dia em que ele foi atacado por um pisco carnívoro, mesmo à nossa frente. Só que o pássaro engasgou-se de tal maneira que conseguimos apanhá-lo, e salvar o esquilo. Ficou com uma ferida na cabeça e um rasgão na orelha, mas de resto safou-se bem. É por isso que lhe chamamos Harry Potter, e o pisco ficou conhecido como 'Aquele Idiota Cujo Nome Não Merece Ser Pronunciado'."
Era uma boa história em qualquer lado, mas ali, na mesa dos Gryffindor e com o verdadeiro Harry ao pé, claramente indeciso entre sentir-se ofendido, ou rir com gosto, a história tornava-se rapidamente numa daquelas anedotas com lugar na história popular da Casa dos Leões. Acabando por fim os flocos, ainda sem saber do que raio eram feitos, resolvi voltar atrás, percebendo que conhecer o Snape não era propriamente um bom cartão de visitas por estas bandas.
"Já vi o Snape, sim. O Tratado Anual do Léxico de Feitiçaria teve lugar na minha escola o ano passado. Esse professor foi o representante de Hogwarts."
"Ah, estou a ver." Harry parecia algo aliviado.
"Podia-te ter conhecido antes, sabias?" Ron virara-se completamente para mim com um ar sério. "Assim podia ter-te avisado para dares o Snape a esses piscos que há na tua Mata."
Nem Hermione, pois era esse o nome da rapariga, conseguiu conter o riso, perante a imagem totalmente absurda que apareceu na mente de toda a gente ao ouvir tal comentário.
"Não têm nada na vossa Floresta para tratar do assunto?" perguntei para continuar a piada. " Lá se calhar só os melros, ou os Boletos, é que davam conta do recado."
"Mm. Temos a Lula gigante. Mas ela é inofensiva. Talves aquelas aranhas enormes lá na Floresta, as Acromantulas.."
Ron, a isso, estremeceu, e propôs uma mudança de assunto, que foi interompida pelo director da escola, que se levantou. Fez-se silêncio no salão, ou tanto quanto é possível numa sala cheia de adolescente que não se viam desde o início do Verão. Foi um bom discurso, aparentemente, se bem que não tenha apanhado quase nada, recostada confortavelmente, e ainda a saborear o último pedaço de gelado que, se confiar na Hermione, é feito de leite, natas árabes e gymnopilus, o que quer que isso seja. Mas é bom! Para uma primeira noite, tudo correu lindamente, e percebi que, em Hogwarts, as refeições são tudo menos aborrecidas. Agora aquele sumo de abóbora...

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